Ricardo Batalha tem 43 anos é redator chefe da revista Roadie Crew, especializada no gênero de rock heavy metal e classic rock. Trabalha na revista como crítico de música há 15 anos. Além de redator chefe da Roadie Crew, Batalha também é diretor de uma assessoria de imprensa e escreve para o portal do terra na internet (espaço rock online), além de apresentar o programa de televisão “Maloik”, que vai ao ar todas as noites de terça, na rede TVA.
Batalha foi redator chefe da revista Top Fight (especializada em artes marciais), colunista de jornais, câmera man e até jogador de basquetebol.
Desde pequeno aprendeu a gostar de música e com o passar dos anos começou a se interessar pelo gênero de rock, mas especificamente o heavy metal. Embora tenha se formado em direito, ele não teve muita vontade de exercer sua profissão, e o gosto por escrever sobre músicas e bandas começou a crescer.
Influenciado pelo seu avô, pois este sempre o presenteava com instrumentos musicais. Batalha chegou a ser baterista casualmente, mas essa ainda não era sua paixão. Estava certo sobre o seu gosto em atuar com música, porém nos bastidores.
Sua experiência como critíco de música se tornou nítida a partir do momento que entra para a Rodie Crew em 1996 e começa a comentar eventos, shows, CDs e músicas de diversas bandas de rock do segmento heavy metal e classic rock nacional e internacional.
Com o passar do tempo, e início dos anos 2000 suas críticas foram se tornando cada vez mais aceitas pelo público, e após anos de experiência, os leitores da Rodie passaram a considerar Batalha como um expert no assunto, gerando credibilidade, confiança e alta taxa de aceitação sobre a maioria das matérias que ele elabora.
No dia 16 de maio de 2012 nós conseguimos um espaço em sua agenda, que quase sempre está cheia de compromissos, para uma entrevista com Ricardo Batalha.
Entrevista, edição e redação: Antônio Ledo, Bruna Ribeiro, Daniele Marques, Domênico Santos e Jacqueline Ferreira.
Como foi sua carreira? Como você começou a trabalhar com música?
Ricardo Batalha: Antes, eu sempre gostei de música. Desde criança o melhor presente que eu ganhei da minha mãe foi um toca-vitrola. Minha mãe falava que eu não sabia nem ler, mas sabia colocar a faixa de qualquer disco que ela falava. Ela dizia “coloca em tal música”, ai eu ia lá sem saber lê e colocava. A música sempre me acompanhou. Meu avô me dava de presente instrumentos musicais e na minha casa tinha um piano e muitos instrumentos de percussão. Com o passar do tempo, eu passei a me interessar mais por música quando comecei a escutar heavy metal em torno de 1980. Quando eu tinha por volta de 13 anos meu pai trabalha como advogado, e me levou numa gráfica. O dono da gráfica perguntou para mim: “O que você quer ser quando crescer”? Ai eu falei “eu quero montar uma revista de rock”. Ele pediu para eu rabiscar um num papel, e eu fiz uma capa com o Black Sabbath. Eu nunca imaginava que um dia iria entrevistar o Black Sabbath e conhecer pessoalmente os caras.
Tem muita gente que caminha ao lado da música, esta sempre escutando, mas não pensa em pegar um instrumento e aprender a tocar. Depois de você desistir do trabalho de advocacia, como foi seu primeiro emprego como baterista?
Ricardo Batalha: Quando eu era menor, estudava na mesma escola do Ricardo Confessori, baterista da banda Angra, e éramos da mesma classe. Naquela época tanto eu como o Confessori já tínhamos nossa banda. Mas eu comecei a tocar bateria mesmo, no final dos anos 80. Eu acabei aprendendo bateria sem querer aprender, pois não tinha interesse em tocar. Nessa época eu tinha um amigo chamado Adalto Ribeiro, guitarrista e também formado em direito. Ele ficava sempre falando para mim “pô, a gente sabe tocar, mas falta um baterista”. Eles tinham uma bateria e uma vez eu tentei tocar alguma coisa por brincadeira, ai os caras falaram “Tá vendo, você consegue tocar sem aprender”. Depois eu cheguei no meu pai e disse que queria uma bateria e tinha decidido entrar numa banda. Eu ganhei a minha primeira bateria e sem nenhum professor eu conseguir tocar vários ritmos. Meus amigos não acreditavam que eu conseguia fazer um som na bateria sem ter aprendido nada com ninguém. Mas embora eu tenha tocado em várias bandas, minha intenção real nunca foi ser músico, pois eu queria trabalhar sempre por trás de tudo isso.
Na realidade você considera que seu pai foi responsável por você ter se tornado inicialmente advogado e posteriormente músico, pois da mesma forma que ele te influenciou na sua formação acadêmica, ele também te deu a sua primeira bateria?
Ricardo Batalha: Eu trabalhei alguns anos no escritório de advocacia do meu pai. Mas, enquanto eu trabalhava com direito eu já sabia que eu não queria fazer aquilo. Então eu comecei a filmar shows de algumas bandas. Na época em que eu estudava direito, eu tinha uma câmera que era rara e por isso eu conseguia autorização para fazer as filmagens. A partir de então eu fui conhecendo diversas pessoas desse meio. Depois eu decidi fazer fanzini (uma espécie de revista independente, ou revista de fã) e comecei a vender em alguns pontos da cidade. Os fanzini foram bem aceitos e as publicações sempre se esgotavam.
Então foi a partir dessa época que você decidiu que queria escrever sobre música?
Ricardo Batalha: Eu sempre gostei de escrever. Antigamente, eu pegava um disco e fazia rascunhos de resenhas em agenda. E mesmo se eu tivesse atuando hoje como advogado, eu ainda estaria escrevendo em algum lugar sobre música.
O que você tentava passar para o leitor das suas fanzinis? Era algo mais emocional, que mostrava um sentimento de um fã?
Ricardo Batalha: Eu procurava focar no lado emocional dos fãs. As coisas eram muito radicais na época, então algumas atitudes eram repudiadas. Por exemplo, se havia uma banda que era muito extrema, e de repente passava a usar teclado em suas músicas, os fãs não concordavam e achavam isso um absurdo. E eu falava sobre isso. Posteriormente, eu percebi que isso não erra correto, mas era o que agradava os fãs daquela época, que tinham pouco material sobre o assunto para ler.
Como foi esse seu papel na música heavy metal? Você era advogado, tinha uma câmera e gostava de escrever. Foi quando a grande cena do metal começou a aparecer no Brasil do final dos anos 80 e início de 90?
Ricardo Batalha: A partir dos anos 90 eu comecei a escrever para diversas revistas. Colaborava em algumas edições, como a revista Dynamite e algumas colunas de música de jornais de bairro. Depois que meu pai morreu eu decidi fechar o escritório e não atuar mais com advocacia. Também trabalhei como roadie para a banda Angra e fazia a pré-produção de shows. Na mesma época entrei para a revista Top Fight, e escrevia sobre um assunto diferente. Eu falava sobre artes marciais e basquetebol. Entrei para a revista Roadie Crew também. Eram dois empregos simultâneos. Eu ia ver as lutas de boxe, kung fu e taekwondo e ao mesmo tempo eu pegava CD e fita cassete demo para fazer resenha.
As turnês que você fazia com a banda Angra certamente te ajudaram muito como crítico. Como que sua formação, experiência de vivência com bandas e viagens influenciaram você como crítico?
Ricardo Batalha: Tudo o que eu fiz eu considero importante. Mas a palavra chave foi que eu tive interesse em tudo o que fiz. A vivência com o assunto sobre o qual escrevo é o principal. Você deve ter um estilo próprio para elaborar um resenha ou uma crítica. O crítico não deve ser alguém muito rígido, como também não deve ser bonzinho demais. Isso você aprende a ponderar com o tempo. Quando eu era novato, eu relia meus textos e pensava “nossa exagerei aqui“.
Para você ser um crítico de música, o que você considera importante? Por mais que você trabalha com uma revista segmentada para um tipo de música, você deve ter a mente aberta e escutar de tudo. As pessoas geralmente tem gostos definidos, alguns falam que curtem heavy metal, outros curtem somente funk. Como você encara o papel do crítico sendo uma pessoa mais eclética?
Ricardo Batalha: Há muito tempo atrás eu era muito radical e só curtia heavy metal, e nada mais. Mas com o passar do tempo eu tive de perceber que devia ter a mente aberta e conhecer diversos estilos musicais para saber o que estou falando, senão você fica muito limitado. Muitas vezes um músico utiliza em suas canções referência de outras bandas que nem sempre são do mesmo estilo musical. Então se você não tem um pouco de conhecimento sobre outros estilos você não vai entender o que ele elaborou.
Que estilo musical você mais se identifica?
Ricardo Batalha: Os estilos que mais gosto é heavy metal, hard rock, trash metal, rock progressivo, blues e muito pop dos anos 70 e 80.
Você falou que teve uma época na sua vida que você começou a fazer revistas de fãs ou “fanzines”. Desde o tempo que você iniciou escrevendo em fanzine até hoje, você sempre trabalhou como crítico?
Ricardo Batalha: Inicialmente eram criticas de CDs. Quando fazíamos fanzine a nossa intenção era pegar os discos importados que poucas pessoas tinham no Brasil e consegui analisá-los. E ai fazíamos a crítica do CD. Eu consegui fazer isso porque eu tinha muito contato na Woodstock Discos que comecei a frequentar desde os 10 anos de idade. Eu lembro que o próprio dono da Woodstock quando vendia discos ele era um crítico. Ele escrevia num papel na vitrine da loja “Slayer, banda nova, som diferente”. É claro que ele queria vender, mas ele também queria mostrar o que era é novo. As vezes lançava um disco e ele costuma dar sua opinião nas vitrines, “essa banda é mais ou menos”.
De todas as revistas que você atuou, qual delas você mais elaborou textos de crítica de música?
Ricardo Batalha: Na própria Roadie Crew. Eu não consigo nem contar a quantidade de trabalhos sobre CDs, DVDs e shows que tive que fazer.
Na sua opinião, o que é uma crítica bem feita? Ela tem paixão, ela é para influenciar?
Ricardo Batalha: Deve ter um estilo. E o mais importante é a coerência. Se um crítico entende muito daquele assunto ele deve escrever sobre isso. Motivo pelo qual o leitor sente mais confiança quando lê algo de alguém que realmente conhece do assunto tratado.
Então, dependendo da pessoa que faz essa análise, ela pode fazer o leitor se identificar com ele?
Ricardo Batalha: Eu já entrevistei muitas bandas grandes. Os leitores vem falar comigo por causa das críticas que faço sobre as bandas: “Adoro suas críticas, e não aprecio os outros críticos por que são muito empolgados e sempre dão nota 8, 9 ou 10, mas você procura falar o a verdade”. Novamente falo que a pessoa que escreve deve ter estilo e coerência.
Você acha que conhecimento e repertório pessoal ajuda muito?
Ricardo Batalha: Sim, ajuda muito. Embora tenha críticos que copiam um pouco o estilo dos outros (risos).Há vários tipos, alguns críticos são muito antipáticos, enquanto outros são empolgados demais para elogiar.
Da mesma forma que você disse que as pessoas chegam para você e dizem que adoram suas críticas. Já aconteceu o contrário, e um leitor discordar totalmente do que você escreveu?
Ricardo Batalha: Sim, já aconteceu várias vezes (risos). Uma vez eu dei nota 5 para uma banda e alguns leitores acharam um absurdo. Até hoje tem leitor que fala dessa crítica.
Você acha que a crítica tem que influenciar ou tem que expor mais o seu pensamento?
Ricardo Batalha: Quando eu faço a crítica eu me coloco no lugar do leitor que vai ler e que já gosta daquela banda. Assim ele vai entender o que eu estou falando perfeitamente.
Antigamente, sem muita tecnologia, você tinha que sair, buscar informações, ir em shows. Hoje em dia, praticamente tudo está ao nosso alcance. Como que é a sua rotina hoje e como você faz para se atualizar?
Ricardo Batalha: Ainda considero muito importante você estar nos lugares. Pois esse tipo de interação é muito importante. Embora os novos meios tecnológicos ajudem, e muito. Hoje mesmo eu fiz quatro críticas de CD, e nenhuma delas foi de CDs físicos. Recebi antecipadamente as músicas da gravadora por um link.
O jornalista cultural tem que ter o lado de fã, porém deve ser imparcial?
Ricardo Batalha: Você deve conciliar os dois. É lógico que não dá para ser amigo de todos.
Mas você pode falar a verdade e não exagerar demais na crítica.
Você entrou na 3ª edição da Roadie Crew. De lá para cá, como foi que a revista cresceu?
Ricardo Batalha: O segredo foi dar um passo de cada vez. Tinha a parte de heavy metal, depois venho o classic rock. Aos poucos a revista foi conquistando um público fiel. E nosso pensamento sempre foi em montar cada revista pensando: “ a próxima vai ser melhor”. O erro acontece quando você sempre acha que já está bom.
Como é a sua rotina de trabalho na Rodie Crew?
Ricardo Batalha: Inicialmente fazemos a reunião de pauta. Nesse caso já temos as entrevistas que já foram feitas. Há uma lista com todos os shows que irão acontecer ou os que já aconteceram e já temos o texto. Decidimos a divisão das sessões da revista e discutimos as matérias e ideias com todos que trabalham na elaboração da revista. Após a reunião de pauta, eu faço uma tabela com as datas e entregas de todas as matérias e os prazos estipulados. Depois das matérias serem entregues, fazemos as revisões e edições dos textos. Por fim mandamos o material completo para o diagramador, com quem mantenho contato constante.
O que falta para você se realizar profissionalmente e como um fã?
Ricardo Batalha: Que o estilo heavy metal fosse mais estruturado e mais valorizado no Brasil.
Nenhum comentário:
Postar um comentário